E se o mundo acabasse
Se esfumaçasse depois de amanhã?
Se a terra, enorme e tão nossa
Virasse uma fossa depois de amanhã?
Se os dias tivessem na margem
De uma miragem pronta a acabar
Veria um casal, aos beijos
Como um lampejo capaz de cegar
Via um polícia sem regras
De paraquedas, saltar de uma ponte
Via um sem abrigo, meio despido
Nadar numa fonte
Via também um ladrão
Com flores na mão p'ra dar na rua
E alguém que eu não conhecia
Em estranha apatia, a contemplar a lua
Via uma dança, tão larga e tão mansa
Um mar de gente, a rir e a gritar
Vi homens velhos, de novo fedelhos
Usar flores de outono p'ra se disfarçar
Mães com crianças relembrar lembranças
Num esforço em vão de salvar memórias
O ponto final, o ponto fatal
O ponto que acaba com todas as histórias
Se o ponto que há de chegar
É só p'ra apagar o que começou
Chegasse sem avisar
Só p'ra apagar o que começou
Via o talhante Alfredo
Sem culpa, sem medo, declarar amor
Ao Pedro da lavandaria
E vê, quem diria, partilha o fulgor
A São, que vive num bar
Sentada a falar com o pai que morreu
O Bêbedo, à porta de um bar
A filosofar a vontades de Deus
Via também a beata
Com um fio de prata roubado nas mãos
Vi todos em euforia
Viver num só dia, em jeito de irmãos
Via uma dança, tão larga e tão mansa
Um mar de gente, a rir e a gritar
Vi homens velhos, de novo fedelhos
Usar flores de outono p'ra se disfarçar
Mães com crianças relembrar lembranças
Num esforço em vão de salvar memórias
O ponto final, o ponto fatal
O ponto que acaba com todas as histórias
Via uma dança, tão larga e tão mansa
Um mar de gente, a rir e a gritar
Vi homens velhos, de novo a fedelhos
Usar flores de outono p'ra se disfarçar
Mães com crianças relembrar lembranças
Num esforço em vão de salvar memórias
O ponto final, o ponto fatal
O ponto que acaba com todas as histórias
O ponto final, o ponto fatal
O ponto que acaba com todas as histórias